Quinta-feira santa
quarta-feira, 31 de março de 2010
«Eu amei-vos»: estas palavras aparecem várias vezes no relato que o Evangelho de São João faz sobre a última noite de Jesus com os seus discípulos (João 13,34 e 15,9.12). Elas são como uma chave que nos dá o sentido de toda a narração.
Para evocar esta última noite, João conta como Jesus começou por lavar os pés dos seus discípulos. Os outros três Evangelhos recordam que nessa noite Jesus instituiu a Eucaristia. Sermos convidados a comemorar no mesmo dia a instituição da Eucaristia e o lava-pés é algo de muito feliz. Há uma íntima relação entre estes dois gestos: numa grande simplicidade, expressa-se todo o mistério da pessoa de Jesus. Por uma forma diferente de palavras, talvez melhor do que por palavras, Jesus mostra aquilo que está no centro do Evangelho: «Eu amei-vos até ao extremo.»
Tanto para a Eucaristia como para o lava-pés, o contrate entre o gesto e o conteúdo do seu significado é impressionante. É a pobreza e a simplicidade destes dois gestos que os tornam acessíveis a todos.
A Eucaristia resume toda a nossa fé, e só a podemos receber numa atitude de adoração, com um espírito de criança. É celebrando este mistério que o podemos compreender cada vez melhor.
«Isto é o meu Corpo»: estas palavras ultrapassam a nossa compreensão. Nunca ninguém tinha falado assim nem nunca ninguém voltará a falar assim. São palavras únicas em toda a história das religiões, que só encontram a sua justificação em si mesmas. Evitemos tentar encontrar uma explicação que feche o mistério apenas na nossa percepção. Isso foi uma tentação constantemente presente na Igreja.
Quando celebramos a Eucaristia, confiamos nas palavras de Cristo transmitidas pelos primeiros cristãos: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós.» A Igreja comunica, de geração em geração, o mistério que é actualizado pelo Espírito Santo.
Pela Eucaristia acolhemos na nossa vida Cristo, que foi até ao extremo do amor dando-se a si mesmo. E o dom da sua vida dá fruto nos seus discípulos. «Eu sou a videira; vós, os ramos… Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto» (João 15,5.8).
O lava-pés (do qual se apresenta aqui uma imagem muito simples) permite-nos contemplar a humildade de Jesus. Ela há-de espantar-nos sempre. Esta profunda humildade contém uma força de amor que renova toda a criação.
A Omnipotência de Deus é a do amor. Jesus «venceu o mundo» (João 16,33), não por ser mais forte que ele, mas porque introduziu na humanidade uma força diferente, absolutamente nova. Na noite de Quinta-feira Santa, cantamos durante muito tempo: «Ubi caritas et amor, Deus ibi est» (Onde houver caridade e amor, Deus está presente.)
O poder de Deus é uma energia de amor que age a partir de dentro e de forma mansa. Ele pode transformar as realidades mais duras, até mesmo a morte.
Será que estamos suficientemente conscientes de que ao celebrar a Eucaristia abrimos as portas a Cristo, para que a sua força de amor possa irrigar a nossa vida e a do mundo de hoje?
Será que estamos suficientemente conscientes de que através de um serviço tão simples quanto o lava-pés permitimos que a sua presença de Ressuscitado aja no mundo? O nosso empenho situa-se muitas vezes no âmbito do sinal, tal como, aliás, toda a vida de Jesus o foi. Talvez não façamos nada mais do que lavar os pés daqueles que nos são confiados. Mas os nossos actos de solidariedade são sinais que podem abrir uma passagem a Cristo e transfigurar a humanidade.
Será que estamos suficientemente conscientes de que a Eucaristia e o lava-pés são antecipações do Reino? Estas antecipações abrem ao coração do mundo um horizonte de esperança.
Em Taizé, recebemos a graça de fazer uma experiência muito forte da ligação entre a Eucaristia e o lava-pés através da vida de alguns de nós, que viveram oito anos num dos bairros de lata mais pobres de África. Foi em Mathare Valley, em Nairobi, no Quénia. O irmão Roger esteve lá durante algum tempo e depois um pequeno grupo de irmãos continuou. Sem grandes meios para modificar as inúmeras situações angustiantes, que sentido poderia aquela presença assumir?
Como permanecer lá? A exemplo das Irmãzinhas de Jesus, o irmão Roger perguntou ao Arcebispo se, na pobre barraca onde moravam, os irmãos poderiam guardar a presença eucarística. O Arcebispo deu o seu consentimento e foi ele próprio celebrar a Eucaristia no bairro de lata. Mais tarde, um dos irmãos escrevia: «Sem uma oração quotidiana em frente ao dom eucarístico eu não teria aguentado.» Era como uma fonte de vida que permitia aos irmãos continuar, com a sua presença simples, a «lavar os pés» das pessoas daquele bairro. E, pouco a pouco, foram nascendo iniciativas de solidariedade.
Claro que viver uma presença tão gratuita como a dos meus irmãos não dispensa os cristãos de se empenharem com vista a mudar as estruturas de injustiça. Mas se não vivermos perto dos mais pequenos não podemos reconhecer a sua dignidade nem permitir que ela seja respeitada. O apelo do Evangelho para lavarmos os pés aos pobres leva-nos a ultrapassar um espírito de assistência ou de paternalismo e a descobrir tudo o que eles têm para nos dar e que nós podemos receber deles.
Estarmos mais conscientes da relação entre Eucaristia e serviço: não haverá aí uma fonte de renovamento para a Igreja de hoje? Sim, a Eucaristia convida-nos ao lava-pés: ir, tal como Jesus, até ao extremo do amor, amar como ele amou.
Ao ler o evangelho deste Domingo, como todas as outras passagens da Paixão de Jesus, muitas vezes me perguntei (e Lhe perguntei): PORQUÊ?...
No nosso grupo de catequese não pudemos participar nesta dinâmica proposta pela Diocese de Aveiro. Os vossos catequistas quiseram participar e eis aqui a resposta que o Padre amigo invisivel nos concedeu:
A nossa mensagem electrónica:
Bom dia!
Chamo-me Gabriel, tenho 20 anos e moro na Torreira.
Inscrevi-me nesta dinâmica porque gostaria que me dissesse como vive a sua vocação de Padre de paróquia e ainda questionar-me sobre a minha vocação.
As primeiras perguntas que lhe coloco:
1. Que avaliação faz do caminho percorrido com a sua Comunidade?
2. Como é a sua relação com os seus paroquianos? De intimidade/reserva, abertura/fechamento?
3. Considera-se um "cumpridor de ritos" ou um "pai de família"?
4. Em oração, experimenta que Deus ama-o plenamente, apesar das suas faltas? Ama com o mesmo amor todos os paroquianos?
5. Que defeitos encontra em você, como padre?
6. Que dificuldades enfrenta no dia-a-dia?
7. Que vitórias conseguiu alcançar em todos os niveis?
8. Nunca lhe passou pela cabeça deixar tudo o que fez até ao momento? Talvez casar-se e ter filhos?
9. Tem alguma prova de que esta é mesma a sua vocação? É feliz assim?
10. Por último, tem alguma experiência agradável e alegre que o tenha marcado?
Um abraço,
Gabriel
A mensagem do Sacerdote que não conhecemos
Olá O Inquerito é longo. Só te posso dizer que sou muito feliz na minha vocação. Já passei por crises fortes como toda a gente, mas Deus usou de Misericordia para comigo, provavelmente para eu ser um agente de Misericordia , em nome da Igreja, para os demais. Gosto muito dos meus paroquianos, mas, conviver com multidão exige reservas e prudencia, pois nem toda a gente é o que diz e parece ser. Tambem cumpro ritos, pois ter e viver ritos faz parte da natureza humana e ser fiel aos nossos ritos e aos da Igreja faz bem psicologicamente, até porque, na Igreja não somos chamados a inventar ritos, pois eles já estão elaborados, apesar de podermos e devermos ser criativos na vida. Não amo todos com o mesmo amor porque isto não é possivel nem para um pai de familia. Mas amo, sim com o Amor de Jesus Cristo, conforme Ele ama atraves do sacerdocio que me conferiu. E sinto-me imensamente amado por Ele e os meus mais belos momentos do dia passo-os com Ele, na intimidade dos que se amam. Sou muito feliz por isso. Quanto mais nos aproximamos de Deus mais imperfeitos nos sentimos, mas os meus defeitos eu resrevo ao meu foro intimo de consciencia. Como todos procuro deixar que Cristo triunfe em mim, convertendo-me diariamente ao Seu Amor. Vitórias tenho todas, porque sei que é Ele quem faz em mim e apesar de eu ser um debil instrumento. Mas no sacerdocio não se coloca a ideia de colheita, mas de sementeira. Ser fiel cada dia é a única e grande vitória de um homem. Minha crises do passado não me levaram a querer constituir familia , porque eu já a tinha organizado, no namoro , antes de entrar no seminario e renunciei a este projecto. Mas, por vezes há tentações....como toda a gente que tem um coração que está feito para amar. Mas, não me arrependo do emu SIM que espero seja para sempre. Provas da vocação são as da fé. Estou apaixonado por jesus Cristo, e quero deixar-me levar por este amor até às ultimas consequencias. E, finALmente, eu costumo dizer que , para quem ama e vive do amor de Deus, cada dia é uma novidade. tenho tantos momentos de felicidade, interior, de paz e de segurança de estar no meu caminho, que não duvido de estar certo, até porque sempre vi claro isso mesmo, e por isso, posso dizer que vivo em primavera....De resto quero ser PAI, PASTOR, AMIGO dos que Deus me confiar. Rezo por ti. Um abraço.
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